Parecia ser mais um dia comum: acordar,
tomar banho, escolher a roupa, café, trânsito e escritório. Na
volta, padaria, banho, lanche e cama. E exausta como, sempre, não
conseguiria assistir nem a novela das oito.
Pois bem... era o previsível, mas tudo
mudou quando o telefone tocou bem na hora que eu estava fechando a
porta. Quando já estou com os pés na rua e ouço o telefone, é como
se eu já estivesse saído, então nem volto para atender. Se for
urgente, liga no celular. Mas, sei lá por que, aquele dia eu
resolvi voltar para atender.
- Pois não? – sempre atendo o
telefone assim para ligações em horas
inoportunas.
- Alô? Quem é? – uma voz rouca do
outro lado. Quase que indecifrável. Achei que fosse uma voz
masculina.
E eu, mais que depressa:
- Quer falar com quem,
hein?
- Com a Dona Cláudia, ela
está?
Quem me chamaria de Dona? Que ridículo.
Então virei um:
- Não, ela não tá não. Da onde
é?
E, misteriosamente, ela (ou ele) sabia
mais da minha vida do que eu mesma:
- A dona Cláudia mora sozinha, não tem
empregada e detesta que atendam o telefone para ela. É a senhora
mesmo, não é dona Cláudia?
Como assim ela (ele) sabia de tudo
isso?
Quem seria essa pessoa? E que voz
horrível.
Foi quando eu resolvi sentar para não cair
das pernas:
- Olá! Pois não? Quem está falando? O que
deseja?
Fiquei entregue àquele mistério
imediatamente.
- Escute, Dona Cláudia. Meu nome é
Cecília. Você talvez não se lembre de mim, mas eu nunca mais me
esqueci de você.
- Ah é? Que bom? E de onde a gente se
conhece? Eu posso te ajudar em algo?
- Bem... posso refrescar a sua memória, se
você preferir. Eu trabalhava na loja Pague Bem e um dia
você fez uma compra no meu caixa.
Enquanto meus neurônios tentavam absorver
aquela conversa idiota, soltei novamente um:
- Ah é? Que bom!
E a voz rouca (agora, feminina)
continuou:
- Na hora de pagar, você entregou o seu
cartão para eu passar.
- Bem provável que sim,
né?
- E lhe perguntei se eu deveria passar o
cartão no débito ou no crédito.
- Ãh-han...
- E você falou CRÉDITO.
A ficha caiu no momento que ela gritou a
palavra "crédito". Caiu não, desabou. Liguei o nome à pessoa e
imediatamente um calafrio percorreu minha espinha. Eu estava
falando com a anta que tentou passar minha compra no crédito.
Passou meu cartão três vezes e fazia questão de anunciar bem alto
que a compra não havia sido autorizada. Fiquei muito puta. Fiz um
escândalo homérico. Eu havia pedido para passar no débito. Na conta
tinha dinheiro, mas no crédito, o meu cartão estava
estourado.
Mil coisas passaram pela minha cabeça.
Achei que o meu show havia terminado por lá mesmo. O que ela queria
de mim? Pedir desculpas?
- Cecília, não precisa se desculpar. Foi
um...
- Dona Cláudia, agora é a senhora quem vai
me ouvir. Presta bem atenção. O negócio é o
seguinte...
TO BE CONTINUED...
